Há 4 domingos tenho acompanhado o caderno Alt da Gazeta do Paraná, onde o Prof. Silvio Demétrio traduziu livremente “Como ser um crítico de Rock”, de Lester Bangs. Na edição deste domingo, a parte final, veio um formulário básico de críticas de música, onde você apenas preenche algumas lacunas, escolhe algumas alternativas e PÁ! Tá feita sua crítica.
Para seguir a sugestão de Bangs, como tema da crítica, escolhi o último disco do Engenheiros do Havai que nunca ouvi e nunca gostei. Em algumas etapas tomei a liberdade de escolher duas alternativas para compor o parágrafo. Confira o resultado:
Novos Horizontes, Acústico MTV.
Este último lançamento dos Engenheiros do Havaii é importante tão somente na medida em que serve de delineador dos contornos do mal-estar contemporâneo para os historiadores do rock do futuro, se realmente for existir algum com toda essa poluição que está rolando por aí. O disco é um monte de estrume de porco. É tão danado de chato ter de abrir esses pedaços de bosta todos os dias, ter de desperdiçar tempo, quebrar as unhas, sabendo que metade do que rola é só a repetição de um álbum já lançado, que dificilmente consigo me concentrar em desembrulhar a pacoteira depois de já ter tirado os discos de dentro das caixas de papelão (cujas pilhas crescem numa grande bagunça que se espalha pela casa inteira para depois serem arrastadas para um canto por meus amigos cabeçudos!), e eu realmente mal consigo aguentar colocar os CDs no aparelho de som depois disso tudo. Gostaria que ele quebrasse de alguma maneira que eu não tivesse que escutar tanta coisa. Mesmo assim, coloquei esse troço pra tocar como qualquer outra coisa exceto aquelas que nunca consegui, e exatamente agora estou ouvindo e, sabe de uma coisa? Eu estava certo. É uma merda mesmo!
A primeira música Toda forma de Poder me lembra minha avó chamando o Hugo na banheira depois de ter comido aquele peixe que nós tínhamos pescado algo que não foi muito bom para o jantar, quando eu tinha 3 anos de idade. A primeira coisa que você nota é que essa mixagem inteira é uma lavagem e esse álbum tem o que é provavelmente a pior produção do ano. O impacto inteiro do que rola nesse disco pode não te pegar em cheio de primeira, mas se você continuar escutando uma porção de vezes por dia durante a semana, especialmente no fone de ouvido, no final vai aparecer para você num lampejo a revelação de que você é surdo de um ouvido. A segunda parte do disco é um pouco mais da mesma merda (Nem meu cachorro gostou) devido ao fato de que eu passei desinfetante no disco e ele pareceu tocar melhor. Apesar disso, penso que o verdadeiro significado de suas densas e soturnas letras só pode ser captado mediante jogar essa incoerência de merda na lata do lixo e sair para beber uma cerveja, onde provavelmente vai estar rolando alguma coisa melhor no som do boteco (estando onde estou, é preciso considerar melhor essa última hipótese).
Esse trabalho tem inspirado bile venenosa, uma ânsia inesgotável em mim que eu não consigo me conter para descrever o resto do disco. Críticas que vão faixa por faixa são uma chatice, e o álbum não custa mais do que 20 paus na loja certa, então saia e compre o disco para ver por si mesmo se presta ou não. Quem sou eu, ou então qualquer outro crítico ou ser vivente da face da Terra, para lhe dizer como uma música deve ser? Somente você pode ouvi-la com seus próprios ouvidos. Estou certo ou não? É claro que estou. Só sei que vou continuar escutando esse disco até eu sair para o quintal de casa e jogar no incinerador essa ofensa para os meus ouvidos assim que eu acabar de digitar todo esse vômito. Portanto, antes de eu assinar meu nome no pé da página e pegar a grana que esse almanaque de segunda que nunca me paga direito, gostaria de deixar para você uma mensagem: Dado que esses caras são complacentes o suficiente para imprimirem essa coisa toda, mas também não me pagam direito, porque então você não faz isso? Provavelmente eu tenho dado grandes toques sobre uma porção de bons discos nos últimos anos, e por que eu iria cair fora disso agora? Nada além de um monte de mágoas! Um monte de abusos cretinos que não conseguem entender que o rock’n roll é a Revolução! Um monte de sanguessugas baratos como cães atrás de mim! Mas eu tenho o corpo fechado. Então me envie $$$, caramba, ou eu nunca mais escrevo uma palavra novamente enquanto eu viver! Do seu fiel correspondente,
Rafael Spoladore
rafael@spoladore.com.br